Para que serve a CGTP?

quarta, 18 janeiro 2012

João Delgado

É cíclico o debate nos média, e a conclusão servida antecipadamente: a CGTP é uma correia de transmissão do PCP, sem qualquer utilidade para o sistema, porque não assina acordos e, portanto, não defende o interesse dos trabalhadores.

Diga-se em abono da verdade, que nem sempre os dirigentes da CGTP - incluindo Carvalho da Silva - têm sabido desmontar convenientemente esta narrativa, o que até se entende, porque o mais natural é que quando o enésimo jornalista lhes coloca a questão percebam que vão perder uns escassos minutos de tempo de antena à defesa, em lugar de exporem a sua própria versão dos confrontos de classes.

Porque é bem disso se trata, se mais não houvesse, a CGTP é uma central sindical de classe, em que a esmagadora maioria dos dirigentes é de formação marxista, e não tem dúvidas sobre a impossibilidade de angélicos e amplos acordos com o capital.

Mas a CGTP tem sabido também assinar acordos específicos, em aspectos relacionados com a formação profissional, a segurança no trabalho ou o salário mínimo nacional, como exemplarmente explica Arménio Carlos a um vivaço Mário Crespo no vídeo que está aí em cima.

O Catroga, a Cardona, o Frexes, o Castelo... e qual é o problema?

quinta, 12 janeiro 2012

João Delgado

O escândalo mais recente, que ocupa opinadores e povo em geral, teve dois episódios e relaciona-se com as nomeações para a EDP e Águas de Portugal.

Ressalvando o facto de serem empresas com estatutos diferenciados, e de apenas no segundo caso as nomeações serem da responsabilidade directa do governo, o que estaria em causa seria uma atribuição dos cargos por conveniência política.

E é precisamente esta argumentação que profundamente me espanta, quer por parte do PS, que nunca fez nada de substancialmente diferente, quer, principalmente, por parte de PCP e BE, por razões que, essas sim, interessa discutir.

Quando passa para este tipo de argumentação, a esquerda anti-sistema (permitam a classificação primária) está a sugerir que se fosse poder nomearia para os conselhos de administração de empresas públicas pessoas que não estivessem politicamente comprometidas com o seu projecto? Explicitando, seria possível nomear para a administração de serviços públicos alguém que não tivesse com essa causa um compromisso político inquestionável? E isso não levaria a que os nomes a apontar tivessem perfis análogos aos que a direita escolhe? Afinal não é exactamente isso que se passa nos municípios da CDU ou no único município BE? Não são escolhidos partidariamente aqueles que têm responsabilidades conexas com a gestão camarária? Mal corria se lá metessem gente da direita a boicotar o trabalho.

2012, o ano do tandem, ou continua cada um na sua bicicleta?

sexta, 06 janeiro 2012
João Delgado

O conceito de tandem é aplicado além das bicicletas, sempre referindo-se ao esforço colaborativo de duas ou mais partes para um bem comum.

No tandem não há espaço para egoísmos ou birras, porque o movimento só é efectivo se todos os envolvidos estiverem a dar o seu contributo ou, no mínimo, não estiverem a pedalar para trás.

Claro que antes de se iniciar o passeio é necessário definir objectivos e trajectos, e também quem ocupa o selim da frente, assumindo a responsabilidade de manipular o guiador e definir as curvas, sendo certo que, se a velocidade imprimida pela soma dos diversos pedalantes não for a correcta, o velocípede vai mais depressa para a valeta do que para a próxima recta.

Louçã, o Euro e a soberania

quinta, 29 dezembro 2011

João Delgado

Há um par de dias o economista João Ferreira do Amaral veio, em entrevista à Lusa, colocar-se ao lado dos que consideram não ser uma fatalidade a permanência de Portugal no Euro.

JFA é um economista com cotação junto do Bloco de Esquerda, como ressalta da sua participação, em 2010, no colóquio O que fará um governo da esquerda socialista?, em que foi convidado a comentar o debate "Na política económica e financeira", em que foi orador Francisco Louçã.

Refira-se que este posicionamento de JFA sobre o Euro não é novo, como realça Francisco Louçã no artigo A esquerda contra a dividadura, em que aproveita para ajustar contas com a FER, na altura (Outubro 2011) ainda integrada no Bloco. Louçã voltou a este tema no passado dia 22, no artigo Vítor Bento, os novos e velhos nacionalistas e a salvação da Pátria com a saída do euro, desta feita juntando MRPP e FER ao nacionalismo conservador.

A argumentação de FL sobre o hipotético pós-euro é certamente respeitável, não pelo seu currículo académico, pois não faltam por aí brilhantes académicos neo-liberais, mas sim pelo seu percurso político, que o torna insuspeito de defensor do capitalismo.

Carta aberta ao Senhor Primeiro Ministro

terça, 20 dezembro 2011

Myriam Zaluar

Exmo Senhor Primeiro Ministro

 

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.

 

Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.

As condolências do PCP ao povo norte-coreano

segunda, 19 dezembro 2011

João Delgado

 

"O PCP expressou as suas condolências ao povo coreano e à direcção do Partido do Trabalho da Coreia pelo falecimento do seu dirigente Kim Jong-Il."

Sendo verdade o restante do comunicado da direcção do PCP, isto é, "as pressões, agressões e tentativas de desestabilização do imperialismo, a que, desde a Guerra da Coreia no início dos anos 50, o povo coreano e a RDPC têm estado permanentemente sujeitos e, ao mesmo tempo, a mais firme rejeição da agenda intervencionista do imperialismo, designadamente dos EUA, na península coreana e região da Ásia-Pacífico", não seria altura de manifestar esperança de que o povo coreano encontre o seu caminho para uma república verdadeiramente democrática e socialista, considerando até a "posição há muito expressa face a fenómenos e práticas da realidade política coreana com as quais [o PCP] não se identifica"?

Auditoria Cidadã à Dívida Pública: que caminho seguir?

sexta, 16 dezembro 2011

Luis Júdice

É já no próximo sábado, dia 17 de Dezembro, no Cinema S.Jorge, em Lisboa, que se realiza a Convenção durante a qual se pretende debater e discutir em profundidade a Auditoria Cidadã à Dívida Pública. Desde já concitamos o maior número de trabalhadores e de elementos do povo a nesta iniciativa participar.

Reclamada pelo PCTP/MRPP ainda durante a campanha eleitoral para a Assembleia da República que decorreu em Junho do corrente ano, levantada como bandeira de luta por várias plataformas da juventude, desde o M12-M aos Precários Inflexíveis, finalmente, e por iniciativa popular, estão criadas as condições e a vontade políticas para a levar a cabo.

Tal como a organização anuncia, estarão presentes nesta Convenção “diversos economistas portugueses e estrangeiros, muitos dos quais estão ou estiveram envolvidos em processos de auditoria cidadã na Europa e na América do Sul”, entre os quais Éric Toussaint e Costas Lapavitsas, com um reconhecido e credível curriculum sobre esta matéria.

Também quero que se lixem os bancos alemães

quinta, 15 dezembro 2011
João Delgado

“Estou marimbando-me para os bancos alemães que nos emprestaram dinheiro nas condições em que nos emprestaram. Estou marimbando-me que nos chamem irresponsáveis. Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses. Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos a dívida e se o fizermos as pernas dos banqueiros alemães até tremem”.

E foi assim que a lista de irresponsáveis deixou de incluir apenas o MRPP e a FER, com a notável chegada do deputado socialista Pedro Nuno Santos. Claro que há também uns largos milhares de portugueses que se têm manifestado entoando o slogan "Não pagamos a vossa dívida", associações e colectivos diversos que não aceitam o pagamento da dívida tal como está a ser efectuado. Mas também todos estes entram por norma no rol dos transtornados, dos espontaneístas, enfim, basicamente a vulgata é de que são um bando de maluquinhos que não vêem um palmo à frente do nariz e nada entendem da douta ciência económica.

Por que mais um partido de esquerda?

sexta, 09 dezembro 2011

Gil Garcia

Muitos jovens e trabalhadores interrogam-se: para que mais um partido de esquerda? Não há já partidos suficientes? O PS, o PC, o BE e até o MRPP ou o PAN não serão suficientes? Não será mais um partido que vem para dividir a já dividida esquerda? Quem ganha com esta situação não é a direita? Esta nossa crónica visa esclarecer porque temos a opinião de que, efetivamente, os partidos que existem não são satisfatórios e que faz falta um verdadeiro movimento alternativo e socialista.

Se os atuais partidos fossem suficientes e eficazes não teriam surgido movimentos alternativos de massas, em Portugal e por todo o mundo, manifestações (e acampadas) convocadas e concretizadas por cidadãos que se consideravam “à rasca” e sem representação política. Assistimos, inclusive, a uma assembleia popular, no final do último dia 15 de Outubro, por ocasião de uma manifestação internacional (com mais de 20.000 participantes em Lisboa), convocada precisamente à revelia e com a adversidade de quase todos os partidos da esquerda e mesmo sindicatos. Foi desta assembleia popular que se apelou a uma greve geral para travar Passos Coelho e a troika, porque, até aí, a CGTP, dirigida pelo PCP, nem a essa conclusão tinha chegado.

Afinal eram mesmo infiltrados, mas bonzinhos

sexta, 02 dezembro 2011
João Delgado

As sucessivas tentativas das autoridades de explicar o que se passou no dia da Greve Geral, em frente ao parlamento, não têm suscitado o efeito pretendido. Ao contrário de mostrarem ao país um bando de marginais a agredirem polícias, o que se vai revelando é um bando de polícias disfarçados de marginais a procurarem criar desordem que justifique a bastonada.

O ministro Miguel Macedo envolveu-se na explicação de uma história que ou não conhecia ou quis esconder. Guedes da Silva, director-nacional da PSP, começou por mentir e só agora vem admitir a utilização de agentes infiltrados (eufemisticamente "elementos policiais pertencentes à estrutura de investigação criminal da PSP"), embora reclame que os mesmos não são provocadores, porque isso seria ilegal. Infelizmente não é o que as imagens mostram. Os agentes policiais à civil, que, no limite, poderiam estar entre a multidão apenas com a função de observar possíveis comportamentos ilegais, e alertar os seus colegas uniformizados para a intervenção, nunca poderiam estar na linha da frente da confrontação, como admite Guedes da Silva.

Carvalho da Silva e Miguel Portas: eu investigo, tu investigas…

sexta, 25 novembro 2011

Actualização - o vídeo da agressão foi apagado do site onde estava alojado, mas entretanto apareceu no youtube, veremos durante quanto tempo. No 5dias.net publicam-se fotos do agente infiltrado que participou na agressão.

João Delgado

Vai para aí um intenso arrazoado, de gente com responsabilidades à esquerda, exigindo investigações sobre os incidentes que ocorreram ontem em frente à Assembleia da República. Depois de Carvalho da Silva (vamos passar adiante as patéticas declarações de João Proença), hoje foi a vez de Miguel Portas, na Antena 1, reclamar a necessidade de investigações e desenvolver uma teoria conspirativa sustentada apenas no  “penso de que”.

O que nem Carvalho da Silva nem Miguel Portas referiram, sequer ao de leve, é que as muitas centenas de pessoas que permaneceram em frente à Assembleia da República não são certamente polícias infiltrados, nem radicais que procuram protagonismo, como sugeriram. Estes estariam lá certamente, em número reduzido,  mas, como é evidente, a esmagadora maioria são os tais cidadãos e cidadãs, novos e velhos, trabalhadores e desemprecários, indignados e revoltados, que, não se conformando com manifestações ordeiras e com hora de saída marcada, reclamam o direito de ocupar as ruas para gritar, quando e onde lhes apetecer.

Solidariedade com os manifestantes que permanecem em frente à AR

quinta, 24 novembro 2011

Os manifestantes que se mantêm em frente ao Parlamento manifestam a sua indignação e revolta. A violência tem sido manifestada pelos agentes da troika que regem o país.

Que não possam eles contar com manifestações cordatas e assimiladas. Que contem com a indignação e a revolta que crescem e tomam as ruas.

Constituição da República Portuguesa
Artigo 21.º
Direito de resistência

Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.

 

Tecnocratas, gambozinos, e a coragem de não trabalhar

terça, 22 novembro 2011
João Delgado (crónica na RUM)

Dois governos europeus foram formados recentemente debaixo da asa protectora da União Europeia e do FMI. Ditos como provisórios e tecnocráticos, estes governos representam de facto um alijar das soberanias nacionais, debaixo da pressão dessas aves de rapina eufemisticamente designadas por  mercados. Isto com a agravante de quase unânimes maiorias terem sufragado a aberrante novidade nos respectivos parlamentos, pensando provar-se assim a  teoria da supremacia da ciência económica sobre a política. Dizendo-o como se a economia fosse uma ciência exacta, e não mais uma ciência do social, e de entre as ciências sociais exactamente aquela que maior componente política integra. Não por acaso, foi com as teorias liberais no século XIX que a macro-economia deixou de ser designada por economia política, pretendendo-se assim sugerir o tal carácter de ciência exacta e universal, independente das sociedades e das vontades.

Os milionários da Rocinha

terça, 15 novembro 2011
João Delgado

Nunca fui, infelizmente, ao Rio de Janeiro, o que sei das favelas é dos jornais e pouco cinema. Mas virem-me mostrar fotos de um aquário e um j'accuse (desculpem o trocadilho) como prova de vida de luxo dos criminosos da droga, só leva a perguntar: se os mafiosos ricos da Rocinha vivem assim, como viverão os pobres?

O texto que segue é datado, de 2004, um estudo sociológico sobre a vida nas favelas.

"O Estado do Rio concentra 20% de miseráveis, assim entendidos como os que ganham menos de R$ 79 por mês (linha de pobreza fixada por Neri em preços correntes de 2000/SP). No município do Rio esta taxa é de 19,45% e, na favela da Rocinha, de 21,89%, ante 4% nas regiões administrativas de Botafogo, Copacabana e Lagoa.
O economista acredita que a erradicação dessa miséria tem um custo e não é alto. Nos seus cálculos, para que os 33,15% de miseráveis brasileiros atingissem uma renda de R$ 79,00 seria preciso uma transferência mínima de R$ 14,04 para cada um, somando R$ 2,3 bilhões mensais.

A corja

sexta, 11 novembro 2011

João Delgado

O que se passa por estes dias no parlamento é a deplorável exibição de uma corja que vê finalmente chegar a hora em que se vinga de Abril.

Acompanhando o debate em direto na TV são percetíveis os esgares e os salivares daqueles homúnculos, quando há alguma referência a direitos dos trabalhadores, a cortes nos salários, à redução dos serviços públicos.

A corja que habita a quase totalidade daquela casa, dita da democracia, está lá em representação do povo mas sobre ele manifesta o mais profundo desprezo. Por isso não é digna das mãos rugosas e calejadas, do trabalho e da idade, que lhes deram o voto.

Aquela corja não se sensibiliza sequer com as notícias de que há quem tenha de escolher na farmácia qual das receitas aviar, de quem tenha de mandar os filhos nas férias comer à escola, de que estejamos a voltar ao tempo em que os das famílias pobres não podem ir para a universidade.

O silêncio dos robalos

terça, 08 novembro 2011

João Delgado

Em Aveiro, um ex-Secretário de Estado da Defesa, Energia e Indústria, ex-administrador da EDP e da Galp, e ex-presidente da REN, afirmou hoje, à entrada do Tribunal, que só fala no fim do processo. Arguidos no dito processo, de sua graça Face Oculta, estão também um ex-Secretário de Estado da Administração Interna e ex-Ministro-adjunto e da Juventude e Desporto, ex-administrador da CGD, ex-vice-presidente do Millennium BCP, um ex-administrador da PT e  um filho do ex-Secretário de Estado da Defesa, Energia e Indústria, entre outros ex e actuais respeitáveis cidadãos.

Em parte incerta, um ex-líder parlamentar manifesta-se estupefacto com a hedionda acusação de que terá assassinado uma idosa para manter na sua posse uns escassos milhões de euros. Este mesmo ex-líder aparentemente deve outros escassos milhões ao BPN, emprestados na altura em que um colega, de que se fala abaixo, era presidente do banco.

Em Oeiras, um ex-Ministro das Cidades, Ordenamento do Território e Ambiente, e presidente da Câmara, aguarda em liberdade que prescreva o processo que levou à sua condenação pelos crimes de branqueamento de capitais e fraude fiscal.

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