Insurreição generalizada

segunda, 10 setembro 2012
João Delgado (crónica na RUM)

Por esta altura possivelmente só entre a militância mais aguerrida da direita se encontrará uma maioria de portugueses que continue a acreditar ser inevitável o roubo galopante que este governo conduz contra  os trabalhadores.

Beneficiando da apatia de grande parte dos cidadãos, o assalto foi consumado por fases, explorando a despolitização e divisão entre os diferentes sectores sociais. O corte de 5% nos salários públicos acima dos 1500 euros, ainda com Sócrates, foi aplaudido por muitos que pensaram ser justo diminuir os rendimentos dos ricos.
Passos Coelho alargou o conceito, levando metade do subsídio de natal de 2011 acima do salário mínimo, num ensaio para a retirada da totalidade dos subsídios de férias e natal aos funcionários públicos, reformados e pensionistas. Muitos trabalhadores do sector privado engoliram a patranha de que se tratavam de privilegiados com emprego estável, e que por isso seria justo serem eles a pagar a crise, resolvendo em definitivo os problemas estruturais do país.

O Bloco e a raposa no galinheiro

segunda, 03 setembro 2012
João Delgado

No encerramento da iniciativa Socialismo 2012, Francisco Louçã voltou ao tema do governo de esquerda, não apenas para convocar a sua necessidade, mas também para afirmar linhas programáticas que afastariam esse governo da prática do centrão de alterne: “nacionalizará a EDP e as redes energéticas nacionais por mais que isso incomode o Partido Comunista chinês; nacionalizará serviços financeiros por mais que isso incomode a família presidencial angolana, trará os hospitais públicos para o Serviço Nacional de Saúde por mais que isso incomode os Mellos e os Espíritos Santos”.
Com esta agenda governativa, Louçã estava também a deixar claro que o Partido Socialista, como o conhecemos, não poderá fazer parte dessa convergência, mas cuidou de deixar a porta aberta ao ambicionado PS de esquerda, em entrevista ao DN: “enquanto ajudar a conduzir Portugal às mãos do PSD e do CDS à sua destruição não é um parceiro”. Se deixar de o fazer, passará então a ser um parceiro, pode inferir-se.

A golpada constitucional e a contra-revolução

sexta, 06 julho 2012
João Delgado

A ideia de que a Constituição da República (CR) é um escudo protector quanto à contra-revolução, que teve início neste país mesmo antes daquela ter sido aprovada, em 1976, é confortante, mas, infelizmente, um trágico engano.
Desde logo porque alguns dos preceitos mais importantes no capítulo dos direitos nunca foram levados à prática.
- Trabalho igual salário igual?
- Organização do trabalho em condições socialmente dignificantes?
- Assistência material, quando involuntariamente se encontrem em situação de desemprego?
- Todos têm direito à segurança social?
- Um serviço nacional de saúde universal, geral e gratuito? (recorde-se que na revisão de 89 foi introduzido o famigerado “tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito”)

A trapalhada (aka Congresso Democrático das Alternativas)

terça, 26 junho 2012
João Delgado

Ala direita do Bloco, ala esquerda do PS e Carvalho da Silva, em tirocínio para Belém, juntam-se para uma trapalhada que terá a designação de Congresso Democrático das Alternativas, mas poderá vir a transformar-se no Congresso de Branqueamento do PS.

Sem sectarismos, o diálogo da esquerda com gente do PS deve rodear-se de precauções especiais, sob pena de a pretensa atração dos socialistas para posições consentâneas com a denominação que persistem em utilizar tenha exatamente o resultado contrário. O passado mais ou menos recente conta-nos histórias exemplares, de que retivemos nomes como Vital Moreira, Barros Moura, José Luís Judas, Pina Moura, Mário Lino, Maria Santos e Miguel Vale de Almeida, para apenas citar os mais mediatizados.

Feijão verde de Marrocos

sábado, 23 junho 2012
João Delgado

Uma reportagem televisiva sobre o anunciado falhanço na redução do déficit apresentava como imagem de fundo a secção de legumes de uma grande superfície, em que se destacava uma pancarta com os inesperados dizeres “Feijão verde de Marrocos”.
Se pensarmos na relação entre os portugueses e Marrocos nas últimas décadas, recordaremos as viagens à boleia, ou num 2 cavalos, com que os mais libertos de espírito se dirigiam ao norte de África no pós-25 de Abril, procurando o exotismo dos bazares, ou mesmo uma proibida tablete de haxixe. Passada a euforia da revolução, a integração europeia e o dinheiro aparentemente vadio, que forrou muitos bolsos, levaram a que as viagens a Marrocos fossem agora de jeep, em pueris expedições, misto de novo-riquismo basbaque e espírito de reconquista.

Quando eu for grego, o meu voto será...

quinta, 14 junho 2012
João Delgado

Governo ou não governo, assim se tem resumido, simplisticamente, o “diálogo” entre Syriza e KKE. Deste ponto de vista, pareceria inquestionável que a razão está do lado do partido que o BE reconhece como seu homólogo, cabendo o ónus do sectarismo ao “partido-irmão” do PCP. Fosse a vida assim tão simples, e não seria necessário pensar duas vezes para responder à magna questão, colocada por tanta gente de esquerda, de saber o que faria no domingo com o seu voto, se fosse grego.
Tsipras acaba de publicar no Financial Times um artigo em que procura sossegar os mercados, garantindo que o seu “ movimento - Syriza - está empenhado em manter a Grécia na zona euro”, comprometendo-se também com o seu crescimento, não se esquecendo aqui de citar e manifestar concordância com Barack Obama. A Syriza tem hoje um programa de governo indubitavelmente social-democrata, mas seria da mais profunda injustiça confundir esse programa com qualquer coisa que se tenha passado nessa área política nos últimos 50 anos.

Crise? Está tudo bem.

terça, 12 junho 2012
João Delgado

Está tudo bem, têm dito e repetido o senhor Coelho e sua pandilha. Está tudo bem, estamos então muito satisfeitos, porque temos satisfeito os compromissos e o país se está a levantar. Há quem fique perplexo com essa aparente contradição entre o “está tudo bem” e o estado geral das coisas, com falências diárias de empresas, um milhão no desespero sem trabalho, estudantes a abandonarem as escolas, doentes a escolherem de que medicamento abdicar, crianças a passarem fome em casa e a recorrer à caridade.

Quando dizem que está tudo bem, acrescentam que o país está no bom caminho, e muito boa gente cuida que a ela se referem quando falam desse tal país, esquecendo que esta não é uma guerra entre países, é, mais uma vez, uma luta de classes. E é por isso que Coelho e os seus dizem que está tudo bem. E está tudo bem porque estão a ganhar. E já estão a ganhar desde que começaram a desmantelar o que perderam no 25 de Abril.

Cavaco zunzum, o presidente-fantoche

quinta, 24 maio 2012
João Delgado

Funambulando por Timor e adjacências, sempre com a comovida Maria na peugada, Cavaco vai proferindo inanidades com ainda maior regularidade do que quando se encontra em solo pátrio.
Ontem,  a pessoa não se pronunciava sobre as ameaças de Relvas aos jornalistas, por não se querer meter em polémicas político-partidárias, para logo a seguir exultar com uns zunzuns que terá ouvido sobre o consenso político-partidário, quanto à adenda ao tratado europeu que os vendilhões assinaram.

Durão Barroso, em 2002, apoiou o golpe contra Chávez. E para 2012, tem algo na agenda?

terça, 15 maio 2012
João Delgado

Para quem tinha ilusões sobre a qualidade da democracia na União Europeia, os recentes desenvolvimentos da situação política na Grécia, e consequentes reações um pouco por todo a Europa, são bastantes esclarecedores.
Não estou sequer, aqui e agora, interessado em discutir como a Grécia chegou à situação de pré-catástrofe, mas sim em apontar o dedo a quem conduz a Europa por um acidentado declive, com a insensatez de um bêbado ao volante de um camião-cisterna.
Os gregos, além de terem espatifado a mesada em luxos, atreveram-se agora a dar com os pés nos partidos que negociaram a soberania do país em troca de empréstimos agiotas, que os condenam a uma crise humanitária, como diz o dirigente da Syriza, Alexis Tsipras.

A Fontinha é do povo!

quinta, 26 abril 2012
João Delgado

Volto à Escola da Fontinha, porque o Colectivo Es.Col.A  nos interpela de novo. Temos recuado para posições ultra-defensivas e procurado convencer timidamente os concidadãos de que a democracia pode ser melhor.

Os nossos partidos têm procurado nas sedes institucionais demonstrar que têm razão, e poucos haverá neste país que a não reconheçam, quando se discute tematicamente.

O que nos tem faltado é a demonstração, aqui e agora, de que são possíveis modos alternativos de funcionamento, mesmo sob domínio do capitalismo, que sejam testemunhos práticos que libertem o povo das amarras da dominação ideológica.

A Fontinha é um desses exemplos. Porque ali se está a disputar uma batalha ideológica que inclui os temas mais importantes da dicotomia capitalismo / socialismo, como a propriedade, o estado e o seu aparelho repressivo.

Miguel, o heterodoxo

terça, 24 abril 2012
João Delgado 

O Miguel era um vermelho heterodoxo.

Como muitos outros militantes da UEC, depois JCP, fui sempre acompanhando as suas aventuras no jornalismo e na política.

Esteve sempre um passo à frente, e quase sempre com tendência para projectos impossíveis, como o Já ou a Política XXI.

Reencontrei-o na Plataforma de Esquerda e depois no Bloco, onde não raras vezes estive em discordância absoluta. Recordo que no 11 de Setembro estava a trocar com ele sms´s sobre uma visita a Braga no preciso momento em que o segundo avião entrou em cena. Escandalizei-me depois quando classificou os actos terroristas de genocídio.

O 25 de Abril dos pequeninos

terça, 24 abril 2012
João Delgado

Surpreendente a decisão da Associação 25 de Abril, mais surpreendente ainda as anunciadas ausências de Soares e Alegre às comemorações "oficiais" do 25 de Abril. Surpreendente, pois a decisão de não branquear a contra-revolução há muito deveria ter sido tomada por outras partes. Porque o que se tem passado é o aproveitamento de uma data que tem um significado que vai muito além da democratização, para o gozo com aquilo que foram de facto as conquistas de Abril, inscritas na Constituição da República que eles, por medo, votaram.

Nada de misturas. Deixem-nos sozinhos sem cravos, com rosas, com malmequeres, com outra negação qualquer que entendam adequada.

A Es.Col.A é uma Escola para a esquerda

sexta, 20 abril 2012
João Delgado

O que se passou na Es.Col.A suscita a toda a gente de esquerda o mais profundo repúdio. Mais do que odiar aquele projecto, Rui Rio - como rosto da direita autoritária - procura vacinar contra eventuais contágios.

A história é longa, já comemorou um aniversário, e mereceria outra atenção da esquerda institucionalizada que, tendo outras preocupações mais abrangentes, não pode, nunca por nunca, deixar em terreno podre quem mexe na essência do capitalismo, o denuncia por actos, e propõe alternativas. A Es.Col.A é parte do socialismo, aqui e agora.

Pedro Nuno Santos, alegremente “muito à esquerda de Sócrates”

sexta, 13 abril 2012
João Delgado

Pedro Nuno Santos saltou para a ribalta mediática com a divulgação de uma inflamada intervenção numa iniciativa local do PS, em que se afirmou como um rebelde anti-troika:

"Estou marimbando-me para os bancos alemães que nos emprestaram dinheiro nas condições em que nos emprestaram. Estou marimbando-me que nos chamem irresponsáveis. Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses. Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos a dívida” e se o fizermos “as pernas dos banqueiros alemães até tremem”.

O resto da história também é conhecida, declarações "fora do contexto", "imagética muito rica", citando o pacato líder parlamentar do PS, Carlos Zorrinho, que deitou água na breve fervura.

Mas, a partir daí, Nuno Santos manteve-se sob atenção da opinião publicada, sempre à espera de que o apoiante de Seguro à liderança viesse a ser a sua principal dor de cabeça.

Os ladrões do “rendimento mínimo”

segunda, 02 abril 2012
João Delgado

A sanha persecutória contra o Rendimento Social de Inserção prossegue, a coberto da suposta moralização dos apoios.

Todos sabemos que existe uma percentagem de fraude e abuso no RSI, como existe em todas as prestações sociais. Há quem engane o sistema para receber mais uns escassos euros, que lhe são essenciais a uma vida digna, e há quem se aproveite para aumentar os rendimentos sem quaisquer escrúpulos. Isto acontece na acção social no ensino básico como  no superior, nos subsídios de desemprego e nas baixas médicas, nos abatimentos no IRS, como em qualquer lugar em que existam dinheiros públicos. Se todos o sabemos, também não é conhecida qualquer oposição a medidas que contribuam efectivamente para eliminar ao máximo esses abusos, permitindo assim que quem de facto mais precisa seja mais apoiado, sem necessidade de utilizar expedientes.

Parar a contra-informação sobre a carga policial na Greve Geral

terça, 27 março 2012
João Delgado

A contra-informação relativa à carga policial no Chiado está a utilizar um vídeo de manifestantes a arremessar cadeiras de uma esplanada para assim justificar a violenta actuação. Cabe por isso esclarecer que, ao contrário do que se insinua, a ordem dos vídeos é a que apresentamos abaixo, isto é, primeiro aconteceu a investida da polícia e só depois alguns manifestantes ripostaram.

Acresce que, mesmo se o arremesso da cadeiras tivesse precedido a carga policial, nada justificaria aquela brutalidade descontrolada sobre tudo o que mexe - incluindo fotojornalistas - sem qualquer ordem prévia para que os manifestantes que não queriam ver-se envolvidos em violência abandonassem a área.

Como bem lembrava um dia destes um camarada, quando a polícia carrega sobre as claques de futebol faz de conta que carrega mas rapidamente para a investida. Por uma simples razão, tem medo de que a multidão se vire e sejam as fardas azuis a passar a correr à frente de cachecóis azuis, vermelhos ou verdes.

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