PONTO DE VISTA :: Eu vi este povo a falar
João Delgado
Isto vai uma grande confusão. Os mesmos que se queixavam de que não existe sociedade civil, de que o povo não se manifesta, de que os partidos de esquerda não sentem uma vaga de fundo que os sustente, de repente ficam perplexos quando o povo – o zé povinho – pega na palavra.
José Manuel Coelho, Deolinda, geração à rasca, Homens na Luta... subitamente o povo, nas suas múltiplas declinações, lembra-se de entrar na pólis – dir-se-ia melhor, assumir a sua pólis – e dizer o que lhe vai na alma.
E muito há quem na esquerda conformada não se aperceba de que, se é para o povo falar, não se supõe que fale seguindo um guião, ou desígnios teleológicos que lhes não foram disponibilizados. Claramente, estamos num tempo em que o povo pegou na palavra, para dizer “façam qualquer coisa por nós”. Quem tem como projecto político representar esse povo, que se sente oprimido e explorado, que resolva o problema, assim colocado de forma crua. Façam é um favor: não disparem sobre os mensageiros, sobre essas expressões inorgânicas de descontentamento, que mais não são do que a face mediatizada do rumor crescente contra o status quo.
Têm a palavra os que de si próprios dizem ser a verdadeira, ou mesmo a única esquerda. E agora? Como convencer o povo de que o grito tem um eco, que se pode traduzir numa mudança sistémica? Releia-se o diálogo recente entre PCP e BE e procure-se uma resposta.

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