Depois da Ruptura, a segunda vida do Bloco. (Re)Começar de Novo?

João Delgado
Salvo raríssimas excepções, os debates internos no Bloco realizaram-se entre uma imensa maioria e os trotskistas da Ruptura / FER, que recentemente abandonaram o partido e fundaram o Movimento Alternativa Socialista. Note-se que esta afirmação só é verdadeira se nos referirmos aos debates públicos, pois é sabido, por quem conhece minimamente o funcionamento do BE, que sempre existiu confronto de opiniões e correspondentes linhas divergentes dentro da maioria. Acontece é que a necessidade de construir o partido, formado a partir de diversas correntes, levou à implantação de uma "ditadura da maioria", se quisermos fazer a analogia com a ditadura do proletariado, que, aliás, também deveria ser transitória e em nome de uma causa maior.
A saída da FER contribuiu certamente para uma libertação dos debates internos, que doravante não poderão ser resolvidos com simples epítetos de "entrismo" ou "fraccionismo", enfim, com as acusações que fazem parte da tradição da extrema-esquerda e dos seus múltiplos pequenos grupos em constantes e estéreis confrontos.
A partir de agora, os debates far-se-ão dentro da maioria, e é aí que dicotomias programáticas como reforma / revolução e outras do plano da luta ideológica terão de ser ultrapassadas, ao mesmo tempo que as questões dos dias que correm, da política real. Se recuarmos um par de anos (na verdade são 3 ou quatro), estes debates já afloraram aqui e ali, designadamente a partir da relação com José Sá Fernandes e posterior acordo com o PS na Câmara de Lisboa, no apoio a Manuel Alegre, na moção de censura a Sócrates, no célebre não-encontro com a troika e na polémica com Rui Tavares, que acabou por cindir com o Bloco (de que não era militante) permanecendo como deputado europeu. Na verdade, estes factos valem menos por si próprios do que por aquilo que significam, e que muito simplesmente se traduzem na relação do BE com a esquerda social-democrata, o que significa falar das pulsões da boa governança que animam muitos dos seus mais destacados dirigentes.
No início da semana, numa bem conduzida entrevista de Nuno Ramos de Almeida para o jornal I, Francisco Louçã teve de responder directamente aos “economistas próximos do Bloco” - habitualmente conhecidos pelo nome do blog onde escrevem, o Ladrões de Bicicletas - que se manifestam "favoráveis à saída do euro e à tomada de controlo das políticas orçamentais e monetárias". Reconhecendo-os como "economistas muito competentes e pessoas muito bem preparadas que têm argumentado com muita inteligência sobre esta matéria", Louçã considera que eles vêem a economia "como um simples jogo de macrorrelações" e não "como integrada no movimento social e no movimento popular".
É possível então que na próxima Convenção se organize uma oposição interna como nunca existiu, ou seja, uma oposição ancorada no que hoje é a maioria, e que, portanto, não pode ser tratada como ainda hoje Louçã trata a Ruptura / FER: "Esse grupo que refere saiu com uma característica particular de ter feito três conferências de imprensa em que iria entregar cartões do Bloco. Nós ainda estamos à espera porque até agora não houve um único cartão entregue. Foi só enviada uma lista fantasiosa de nomes que incluía pessoas que estão no Bloco e não saíram e outras que nunca foram do Bloco. Tudo isto faz parte de uma forma de fazer política de uma forma fantasiosa."
Calculando que este tipo de debate está encerrado, até porque não pode prosseguir um debate interno entre partidos que são diversos, é com expectativa que quem se interessa pelas coisas da esquerda acompanhará o futuro próximo do BE, designadamente as discussões preparatórias e a Convenção de Novembro próximo. Com a certeza de que o Bloco que de lá sair enfrentará um "começar de novo", até pelas anunciadas saídas, a nível de direcção política, de Miguel Portas e Fernando Rosas.
Tal como diz Louçã ao I, "na Europa não existe outro exemplo como o Bloco". Veremos então como suporta e ultrapassa este exemplo as dores da adolescência, agora que vai nos 13 anos de vida.

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