A trapalhada (aka Congresso Democrático das Alternativas)

terça, 26 junho 2012
João Delgado

Ala direita do Bloco, ala esquerda do PS e Carvalho da Silva, em tirocínio para Belém, juntam-se para uma trapalhada que terá a designação de Congresso Democrático das Alternativas, mas poderá vir a transformar-se no Congresso de Branqueamento do PS.

Sem sectarismos, o diálogo da esquerda com gente do PS deve rodear-se de precauções especiais, sob pena de a pretensa atração dos socialistas para posições consentâneas com a denominação que persistem em utilizar tenha exatamente o resultado contrário. O passado mais ou menos recente conta-nos histórias exemplares, de que retivemos nomes como Vital Moreira, Barros Moura, José Luís Judas, Pina Moura, Mário Lino, Maria Santos e Miguel Vale de Almeida, para apenas citar os mais mediatizados.

O jornal i antecipa a participação na trapalhada de “um conjunto alargado de deputados e destacados militantes do PS” garantindo que “Pedro Nuno Santos, Isabel Moreira, Mário Ruivo, Maria Antónia Almeida Santos, Duarte Cordeiro, Pedro Alves, Ana Catarina Mendes, Sérgio Sousa Pinto e João Galamba subscreveram o documento “Resgatar Portugal para um futuro decente””.  Não me apetecendo agora perder precioso tempo a verificar se todos eles são atualmente deputados do PS, certo é que se juntam a esta lista de “socialistas” António Arnaut e Ana Benavente, só faltando mesmo Manuel Alegre para compor o ramalhete.

Como aqui não há ingenuidades, significa isto que os promotores do Congresso fizeram questão de passar à imprensa esta informação para destaque. E entre esses promotores estão destacados dirigentes do Bloco de Esquerda, como João Semedo e José Manuel Pureza, ambos da corrente Política XXI, de que era principal animador Miguel Portas.
Resta saber se esta representação do BE é oficiosa, isto é, se tem o acordo de Louçã e Fazenda, ou se se trata de uma grelha de partida para a Convenção do partido , que deverá discutir o novo rumo depois da derrota eleitoral e do ânimo trazido pelo relativo sucesso dos seus pares gregos da Syriza.

Mas, voltando ao PS, já o líder parlamentar, Calos Zorrinho, veio garantir  ver com “muita naturalidade” que “num partido plural”, existam deputados a subscrever um manifesto contra o acordo com a troika que o seu partido aceitou.
Será perfeitamente natural, mas, mais natural ainda, corolário lógico até, será que esses deputados passem ao estatuto de independentes, se juntem às bancadas do PCP e BE no combate à troika nacional, e no próximo Congresso do seu partido vão a votos com uma moção de estratégia, que finalmente proponha uma orientação política permitindo que Partido Socialista possa ser escrito assim mesmo, sem aspas.

E como é previsível que nada disto venha a acontecer, resta saber por que motivo bloquistas e Carvalho da Silva se estão a meter nesta manobra, que só servirá para iludir o povo trabalhador e dar uma ansiada ajudinha para que em próximas eleições o PS se apresente como defensor de políticas alternativas à austeridade e empobrecimento. E se, por outro lado, é uma pré-frente presidencial, não parece prudente construí-la à margem do PCP. Já antes se tentou, e ainda nos lembramos do resultado.

Comentários   

 
0 #11 Manuel Baptista 30-09-2012 12:09
[quote name="Francisco dOliveira Raposo"]Que é necessário um Congresso de Esquerda disso não tenho duvidas.
Eu não tenho dúvidas que é preciso um governo de esquerda, com base num programa de esquerda, amplamente debatido.
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0 #12 Manuel Baptista 30-09-2012 12:11
Achegas para um programa de esquerda de governo

Algumas medidas que um governo verdadeiramente ao serviço do povo e da nação deveria tomar nos 100 dias seguintes à sua tomada de posse:

- Controlo das saídas e entradas de capitais para evitar a sangria permanente que se tem verificado (ocultada pelo governo, mas que deve ter um valor da mesma ordem que a «ajuda» da troika a Portugal!)

- Denúncia do acordo com a tróica (considera-se que o acordo não foi feito em condições de livre negociação entre as partes, havendo uma série de imposições e constrangimento s que certamente não foram assinadas com o esclarecimento e consentimento do povo, além de juros excessivos e de um «direito» de ingerência permanente na nossa vida interna, incluindo no funcionamento das nossas instituições)
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0 #13 Manuel Baptista 30-09-2012 12:12
(cont.)

- Lançamento de um empréstimo interno (medida que deveria ter sido tomada há mais de dois anos) através de obrigações emitidas sobre a CGD, destinada a captar a poupança popular, a 5 anos, juros da ordem dos 5%.

- Descida do IVA geral para 18% e dos IVAs especiais na mesma proporção. Esta medida destina-se a reativar o comércio, a aliviar as famílias e a tornar de novo rentáveis uma série de pequenos negócios e empresas que constituem grande parte do tecido económico do país.

- Medidas de apoio ao emprego e à qualidade de vida: realização de programas de emprego especialmente em cooperação com as autarquias, incluindo renovação de edifícios públicos, de espaços públicos.

- Incentivos (por exemplo isenção de IMI durante certo tempo e juros de empréstimos para renovação que abatem no IRS) para que os particulares façam renovação de suas casas. Isto também irá reativar a construção civil e aumentará imenso o número de postos de trabalho pois é um sector que mobiliza bastante. Além disso, se o sector da construção civil for reativado, haverá uma série de sectores a montante e a jusante que também o serão.

- Reativação da agricultura e silvicultura: uma lei que obrigue os proprietários de terras agrícolas ou de floresta a cultivar/ cuidar adequadamente das suas propriedades sob pena de coima ou mesmo de expropriação, caso o abandono persista após notificação. Paralelamente, seriam abertas linhas de crédito bonificadas destinadas a apoiar as melhorias e investimento em renovação na agricultura. As direções gerais de agricultura teriam que dar apoio técnico, realizando diretamente ou encomendando estudos para viabilizar determinadas conversões ou adaptações culturais. Os terrenos agrícolas e silvícolas expropriados serão loteados e vendidos em leilões.

- Programa de incentivo às pescas tendo em atenção a importância de preservar os stocks. Cuidar de defender o litoral de depredações diversas, as quais têm como consequência a descida da fertilidade geral do mar pois o litoral funciona como «berçário» para numerosas espécies do alto mar.

- Lançamento de um vasto programa de recuperação do património. Formação de técnicos de restauro, organização de equipas no terreno e realização de obras de restauro, dando prioridade devida às obras em maior risco e com valor cultural maior. (Esta medida teria também um efeito benéfico no emprego, especialmente de jovens)

- No turismo, nas indústrias transformadoras e outras áreas, congregar esforços para que todos os intervenientes tracem de comum acordo objetivos estratégicos e metas intermédias para os alcançar.

- Obrigar a banca a participar num esforço de financiamento dos sectores produtivos, por exemplo, através de uma lei que obrigue a um patamar mínimo de empréstimo às empresas: pode ser uma percentagem do seu volume de negócios.
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