Feijão verde de Marrocos
João Delgado
Uma reportagem televisiva sobre o anunciado falhanço na redução do déficit apresentava como imagem de fundo a secção de legumes de uma grande superfície, em que se destacava uma pancarta com os inesperados dizeres “Feijão verde de Marrocos”.
Se pensarmos na relação entre os portugueses e Marrocos nas últimas décadas, recordaremos as viagens à boleia, ou num 2 cavalos, com que os mais libertos de espírito se dirigiam ao norte de África no pós-25 de Abril, procurando o exotismo dos bazares, ou mesmo uma proibida tablete de haxixe. Passada a euforia da revolução, a integração europeia e o dinheiro aparentemente vadio, que forrou muitos bolsos, levaram a que as viagens a Marrocos fossem agora de jeep, em pueris expedições, misto de novo-riquismo basbaque e espírito de reconquista.
Mas a maioria dos portugueses só terá visto um marroquino ao vivo numa qualquer rua, de norte a sul do país, com uma ventoinha numa mão, tapete ao ombro e “rolex” na outra, numa caricatura de vendedor, que decerto teve sucesso, porque por aí permaneceu vários anos. Eram os marroquinos a querer partilhar a riqueza europeia, que, pensaram, teria chegado aos seus irmãos do outro lado do Atlântico.
Pelo meio destas histórias, algo deverá ter corrido muito mal para agora estarmos a importar... feijão verde de Marrocos. Essa pancarta exibida na televisão, a par de outras que nos gritam quão disfuncional é esta economia, deveriam provavelmente ser usadas nas manifestações anticapitalistas: Amêijoa do Vietnam, Carne de bovino da Argentina, Sapateira da Irlanda, Maçãs de Espanha, Vinho do Chile, ou Alho da China!
Este povo tem que estar mesmo muito anestesiado, para maioritariamente não se aperceber que algo está errado, quando se senta à mesa e come uns peixinhos da horta, em que a parte leguminosa é... feijão verde de Marrocos.

Comentários
É na resposta a estas questões, e na tentativa de encontrar uma saída para esta situação, que este tipo de debate deve ser tido.
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