Francisco Louçã: "o IV Reich da sra. Merkel leva a uma desagregação do euro"

sexta, 18 maio 2012
Em entrevista ao Sol, Francisco Louçã fala sobre a crise europeia, particularmente sobre a situação na Grécia e em Portugal. Para o coordenador do Bloco de Esquerda - que revela ainda não ter decidido se renovará o mandato no final do ano -, tal como na Grécia, é possível em Portugal disputar em eleições um governo contra a troika, sem o PS. Publicamos extratos da entrevista hoje publicada.

A esquerda socialista está em minoria na Europa.
Foi com uma grande maioria de partidos socialistas na Europa que se votou o tratado de Maastricht, com políticas pró-recessivas. Confio muito pouco no que as cúpulas europeias possam fazer e muito mais nos eleitores.
Isso é que pode mudar a vida da Europa, porque o 'IV Reich' da sra. Merkel leva a uma desagregação do euro, é causadora do risco de colapso do euro e da transformação de recessôes numa grande depressão.

Entremos na questão grega: a Syríza, coligação 'parceira' do Bloco e que está na frente das sondagens, quer anular o memorando mas ficar no euro. Não há dinheiro para pagar salários em Junho. Como é que se resolve esta equação?
Se houver um governo de esquerda, o compromisso eleitoral que eles têm - que partilho - é de iniciar imediatamente um processo de renegociação com uma moratória sobre o pagamento dos juros da dívida, por razões óbvias de financiamento, e que permita o cancelamento da dívida ilegítima.

Nessa equação a Syriza tem dois problemas: precisa de uma maioria e da aceitação da Europa. A inexistência de uma rede é de alto risco.
O povo grego decide. Começou a aparecer na Europa um tom que é assustador para qualquer democrata: é que os gregos podem decidir o que quiserem desde que seja o que a sra Merkel aceita. A democracia só tem uma
porta política. Hoje o povo grego não tem nada na mão, não tem nenhuma capacidade de decisão e o resultado é uma catástrofe económica. E se puder ter um governo de esquerda será a primeira vez que passa a ter capacidade de decisão, passa a discutir, a negociar.

Ainda falta a questão europeia e a dos mercados. E esta não está só nas mãos da esquerda grega.
Até agora não tem estado, nada se elegerem a Syriza começa a estar. É tão profunda a mudança que pode ocorrer na Europa com uma vitória da esquerda da Grécia, é um sinal tão profundo, que a sra. Merkel só tem duas alternativas: ou utiliza os panzers financeiros contra a Grécia e procura pôr a Grécia fora da Europa - e isso tem um custo político enorme para ela e para todos - ou aceita negociar. As perdas serão muito menores do
ponto de vista democrático e financeiro se houver essa renegociação. Imagine que é expulsa do euro por processos absolutamente prussianos - porque não pode haver outros. Que confiança haverá na Europa, no euro?
Quem vai pagar os 300 biliões de euros que estão nas contas dos bancos do BCE e do FMI? Porque esses vão passar a valer zero. Mais vale abrirem os olhos.
Não pode é ficar assim, ninguém vai pagar aquela dívida, não é possível. Tem de parar agora e tem de parar pela democracia.

Pode haver um Governo PS-BE, com esta liderança do PS?
Se houvesse eleições acho que era muito importante a luta por um Governo contra a troika. O PS é hoje um partido da troika.

Então quais são as hipóteses de Governo?
As hipóteses de Governo dependem dos eleitores. A Grécia está-nos a demonstrar que quem achava que tinha um curral eleitoral garantido por dois mil anos pode ter umas surpresas. Nós não precisamos de um governo da 'austeridade inteligente' contra a 'austeridade excessiva'. O problema é que o PS hoje é o centro, é o centro radical.

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