Quem matou o Partido Comunista Italiano?
Via L'Humanité (tradução vermelhos.net)
Guido Ligori: “Na origem da dissolução do PCI, um deficit de consciência teórica”
Guido Liguori, filosofo especialista em António Gramsci, é o autor de “Quem Matou o Partido Comunista Italiano?” [N.T. - título da edição francesa, na italiana é "La Morte del PCI"] Sem ficar unicamente agarrado aos debates de 1989, esforça-se por revelar as raízes intelectuais e filosóficas da decisão de dissolver o Partido Comunista Italiano, o mais influente do Ocidente, para criar o Partido Democrático de Esquerda.
Quais são as razões principais da dissolução do Partido Comunista Italiano (PCI)?
Guido Liguori. Existem várias razões, mas há uma de fundo. O PCI tornara-se, de há muito, uma federação de partidos, conservados unidos por uma história, uma tradição. Mas os seu componentes distanciavam-se cada vez mais uns dos outros.
A iniciativa do secretario do PCI, Achille Occhetto, de propor uma mudança do nome do partido (12 de Novembro de 1989 - NDR), redistribuiu as cartas. Ele pôde contar com duas correntes no seio do grupo dirigente. A sua (o centro que dirige o partido – NDR) e a direita do partido, a que se chama os “miglioristi”, de onde é oriundo o actual presidente da República, Giorgio Napolitano, e que era, há muito, favorável à transformação do PCI numa força social-democrata. Outra parte do grupo dirigente encarava a transformação do PCI, mas não num partido social-democrata, e não estava, portanto, de acordo com os “miglioristi”. Mas sentiam-se constrangidos, julgavam ultrapassada a tradição, a designação de comunistas.
Quem?
Guido Liguori. Uma parte do círculo de Achille Occhetto que provém da esquerda do partido. Mergulha nas raízes do “ingraísmo” (a ala esquerda movimentista do PCI que tem a ver com Pietro Ingrao - NDR) e que era influenciada pela ideia de modernização da sociedade e da luta defendida então pelo quotidiano “La Repubblica”. Se a mudança foi permitida, foi por iniciativa de Achille Occhetto, inesperada pelo grupo dirigente. “Se o secretário faz alguma coisa, ele lá sabe porquê, é para enganar o inimigo, mesmo que eu, pessoalmente, não perceba”. Se na véspera da proposta se tivesse pedido a opinião dos militantes, 90% teria recusado tal perspectiva.
No seu ensaio você cita várias pessoas para quem, na prática, o PCI já não era comunista. Qual é a sua opinião?
Guido Liguori. Era um partido comunista. Para ser mais preciso, para muitos dos componentes, ainda era um partido comunista. São muitos aqueles que nunca teriam a ideia de mudar o nome do PCI se Achille Occhetto não tivesse apresentado a sua proposta. Entre eles, Massimo D’Alema (que viria a ser chefe do governo entre 1998 e 2000 – NDR). Ele era um dos mais inteligentes defensores da herança de Palmiro Togliatti (secretário do PCI entre 1938 et 1964 – NDR). No decorrer de 1989 ele era ainda um dos que faziam polémica contra os que, já então, propunham mudar o nome do partido. Mas em Novembro, ele muda de opinião. Porquê? Porque é o secretário quem faz a proposta. Numa entrevista, resume bem a mentalidade comunista. Acha que para guiar um autocarro já em marcha é preciso saltar-lhe para dentro e tentar fixar a direcção. Trata-se, naturalmente, de uma ilusão.
É útil lembrar que, à época, Mikhaïl Gorbatchev dirigia ainda a URSS, e se dizia “aluno” do comunismo italiano. Ninguém poderia, então, imaginar que, dois anos mais tarde, a URSS já não existiria, nem prever que a nova força política criada pelo PCI se afastaria dele, e da esquerda, cada vez mais.
Diz que sectores cada vez mais importantes do PCI, e até nas cimeiras do partido, fizeram uma cultura politica diferente da do comunismo. Com mais de 20% de votação, o PCI ocupava um espaço político mais importante do que o dos seus homólogos europeus. Quando se é tão grande, é possível prevenir-se contra a influência social-democrata?
Guido Liguori. A cultura politica do PCI provém de Antonio Gramsci et Togliatti. Desde os anos 1920 -1930, o conceito de revolução é redefinido. Passa a ter em conta a diferença entre sociedades atrasadas, como a da Rússia, e sociedades capitalistas avançadas e complexas onde a revolução falhou. Estando preso, Gramsci encara a revolução como um processo e não como uma tomada do Palácio de Inverno. Este conceito, retomado por Togliatti no fim do estalinismo, nos anos 1950 a 60, visa ultrapassar a divisão existente no movimento operário entre reformistas e revolucionários. Togliatti propõe “reformas de estruturas”, ou seja que com mudanças parciais se acumulam forças e se determinam as situações que vão no sentido do socialismo. É, segundo creio, a razão pela qual o Partido Comunista Italiano ocupa na sociedade italiana um espaço tão importante. Ele ultrapassa, mantendo-as juntas, as tradições reformistas e revolucionárias, mas não num sentido social-democrata.
Quando se mantém no seu seio essa contradição entre reformistas e revolucionários, não há um risco de abrir as portas a gente que, de outra maneira estaria no PS?
Guido Liguori. O risco existe sempre. A questão é: quem dirige o processo? Qual é a cultura hegemónica no seio do partido? O jogo era muito mais seguro quando havia uma referência deferente à aliança com a URSS. Porque esta permitia fazer qualquer jogo táctico de direita, mantendo uma fisionomia comunista. Era esse o procedimento de Giorgio Amendola, da direita do partido, que era profundamente filo-soviética e que apoiou até a intervenção no Afeganistão.
A partir dos anos 1970, são dirigidas novas solicitações aos partidos de esquerda. O PCI tem-nas em conta. Você constata que Ochetto dá uma nova definição da igualdade, retomando a teoria de John Rawls sobre a igualdade de oportunidades. Os direitos são colocados na primeira linha. Você é muito crítico perante tal evolução porque ela faria desaparecer a luta de classes. Não havia o risco de o PCI ficar à margem do que se passa na sociedade se não tivesse em conta essas questões? O tema da meritocracia mobiliza hoje muitos jovens italianos que seguiram os estudos.
Guido Liguori. Para mim, que sou gramsciano, a batalha das ideias é extremamente importante. Junto de uma parte do grupo dirigente comunista, mas também junto dos intelectuais de referência, as ideias da tradição comunista foram sempre relativizadas em favor de novas tradições culturais. Sobre questões como o feminismo, o ambiente, esse ajustamento era necessário. Mas noutras, certas ideias só são interessantes se articuladas com a luta de classes. Se elas se substituem a esta última, isso muda a natureza do partido e do grupo dirigente. Era o sinal de uma cultura politica diversa, qualificada em Itália como liberal-socialista.
Você fala em direitos. De um ponto de vista politico, é correcto intervir nessa questão, defender a democracia, as condições mínimas de vida dos trabalhadores. Mas o problema teórico é que há direitos e direitos. Há direitos que têm a ver com as liberdades, que são justos e que devem ser preservados. Há direitos sociais que decorrem da social-democracia clássica: direito ao trabalho, ao alojamento, à saúde, etc. E defender esses direitos torna-se arriscado quando a referência à luta de classes se perdeu. Porque, qual é o fundamento desses direitos? Para um católico, ele deriva do facto de sermos todos filhos de Deus. E para os que não são católicos? Os direitos não assentam em fundamento algum. Estão sujeitos à correlação de forças, sem as quais não têm nenhum efeito. Para além disso, em tais discursos, quem é o sujeito desses direitos? No lugar da luta de classes aparece um discurso cultural e teórico sobre o indivíduo.
Com respeito à igualdade de oportunidades, é uma teoria liberal de esquerda, mas muito diferente da tradição socialista. Porque ela diz que toda a gente pode ser manager sem, todavia, criticar que possa ganhar muito mais do que os outros. A teoria da igualdade de oportunidades encara uma sociedade como se se tratasse de uma pista de 100 metros, que toda a gente tem o direito de percorrer em 10 segundos. Mas esquece que se alguns conseguem qualificar-se é em detrimento dos outros.
Faz alusão ao facto de, quando o secretário do PCI de 1972 a 1984, Enrico Berlinguer, abriu o partido a novas questões, com um sucesso que não foi desmentido nas urnas, não teve uma nova definição real do que era o novo comunismo. Isso veio a verificar-se importante?
Guido Liguori. Com efeito, houve um deficit de consciência teórica. Isso permitiu à direita do partido utilizar certas evoluções necessárias do período de Berlinguer para derrubar a linha e a identidade do partido. Essa falta de atenção à dimensão teórica remonta ao período de Togliatti. Foi dado o primado à politica. A teoria estava implícita. Porque não explicitar dava mais espaço ao jogo táctico.
Alguns males da República Italiana de hoje, a saber, “partidos lligeiros” e executivo forte que substitui a participação das massas não se devem apenas a Silvio Berlusconi. Como é que estas ideias fizeram caminho, até no PCI?
Guido Liguori. Verificou-se uma rendição dos dirigentes comunistas ao processo de americanização da politica nos anos 1980, sob a influências das televisões berlusconianas, que conduziu a uma personalização da politica, a uma maior delegação e a uma politica de imagem. Isso correspondia a uma evolução da sociedade. Era preciso ver, na altura, se essa evolução devia ser combatida ou se, pelo contrario, devia ser utilizada. Ora Achille Occhetto e os seus próximos estavam convencidos do seu papel: adaptar-se aos processos de modernização da politica e da sociedade. A palavra-chave de Ochetto na sua operação de mudança foi “novo”. A sua ideologia foi chamada: “novismo”.
Quando aparece a renúncia do PCI a impor uma hegemonia cultural no pais?
Guido Liguori. Depois da morte de Berlinguer en 1984. Nos anos 1970 verifica-se a entrada para o PCI de numerosos quadros provenientes das gerações que fizeram 1968 e que participaram no movimento estudantil. Isso mudou o partido. Porque 68 parecia pedir o comunismo mas na realidade reclamava a modernidade de que a Itália precisava muito. Era justo, mas era um pensamento individualista muito distante da tradição e das ideias comunistas. Isso criou as condições para as mudanças dos anos 1980. O pessoal politico que chega depois de 1968 está atento, sobretudo, ao processo de modernização. Enquanto Berliguer lá estava, a mistura com a cultura comunista vingou. Mas depois, quando o PCI conheceu as derrotas eleitorais, houve uma alteração de opinião e as culturas não comunistas cresceram dentro do partido.
E isto quando, para mais, a cultura liberal-socialista, com os seu aparelhos hegemónicos (as suas fundações, os seus jornais como a Reppublica), as suas ligações internacionais, encetou uma critica metódica a todos os pilares da cultura comunista, gramsciana e leninista, nos anos 1970.
Para alem dos partidos comunistas o que resta da história e da influência do PCI em Itália?
Guido Liguori. Há essa ideia de reunir todos os círculos "Enrico Berlinguer" de Itália, que são associações culturais e parapolíticas, muitas vezes geridas por militantes que não estão inscritos em nenhum partido. Há essa tentativa de fazer nascer uma associação para a defesa da história do PCI. E, no ano passado, uma exposição “Avanti popolo”, consagrada à história do PCI, registou um formidável sucesso. Na sociedade italiana existem ainda milhares de militantes que, depois do fim do PCI, não se inscreveram em partido nenhum. É o caso da maioria dos antigos filiados do PCI. Eles gostariam de estar agregados numa força de esquerda. A ideia do comunismo democrático ainda está viva na sociedade italiana.

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