Alexis Tsipras: “não queremos os pobres com dracmas e os ricos a comprar tudo com euros”
Em entrevista concedida ontem à CNN, Alexis Tsipras recusa o regresso da Grécia ao dracma [moeda nacional antes do euro], e avisa que se tal acontecer o desastre será a nível europeu. O líder da Syriza acredita que em cooperação com outros países será possível inverter o caminho que está a ser seguido “diretamente para o inferno”. (Tradução vermelhos.net)
Christiane Amanpour: Merkel disse que ou vocês fazem reformas e austeridade ou estão fora do euro. Você acha que a chanceler alemã está a fazer "bluff"?
Alexis Tsipras: Eu não sei o que a senhora Merkel quer fazer. Mas eu sei o que nós queremos fazer. Nós não queremos a Grécia fora da Europa. Nós não queremos a Grécia fora da zona euro.
Mas eu - nós, sentimos que a senhora Merkel coloca o euro e a zona euro em grande perigo, mantendo-nos nestas medidas de austeridade.
Então nós queremos mudar as medidas de austeridade, na Grécia e na Europa. Isso é o que queremos fazer e queremos fazê-lo em cooperação com outras forças e os povos da Europa, as pessoas que querem uma mudança grande, porque toda a gente sabe agora que, com esta política, nós estamos a ir diretamente para o inferno. E nós queremos mudar isso – esse caminho.
Amanpour: Você fala sobre ir diretamente para o inferno. E muitas pessoas estão preocupadas, porque, obviamente, isso seria sem precedentes, se a Grécia deixar o euro e volta para o dracma. Ninguém sabe o que isso significaria. Se isso acontecer, o que acha que significaria para a Grécia e para a Europa?
Tsipras: Acreditamos que, se a Grécia voltar para o dracma, no segundo dia os outros países da Europa terão o mesmo problema. E eu realmente não concordo com muitas coisas que a senhora Merkel diz e faz. Mas concordo com isso que ela disse. Ela disse antes - há um mês - que se a Grécia sair do euro, no segundo dia, os mercados vão descobrir quem será o segundo. E o segundo será a Itália ou a Espanha.
A Itália tem uma dívida muito grande, dívida pública, não como a Grécia. A Grécia tem 3.500 milhões de euros, mas a Itália tem uma dívida de cerca de 1,9 trilhões.
Assim você pode entender o que eu estava a quer dizer quando disse que esta estrada vai para o inferno. Nós não queremos que a Europa esteja num caminho de catástrofe. Então, se queremos salvar a Europa, é preciso mudar - para alterar essas direções.
Amanpour: Eu ouvi-o bem alto e claramente. E você continua a dizer que não querem austeridade, que precisam de mudar isso. Qual é a sua responsabilidade, como um político grego, em fazer este trabalho?
Tsipras: Não, eu não acredito que teremos um benefício, se a Grécia voltar para o dracma. Eu não acredito nisso porque, como - como disse antes, no segundo dia a zona euro vai estar num grande desastre.
Então, eu, não, nós não queremos uma catástrofe para toda a zona euro e para a Europa.
E, ao mesmo tempo, não queremos voltar para o dracma, porque, na Grécia, teremos as pessoas pobres com dracmas e os ricos a comprar tudo com euros.
E essa evolução, não seria uma boa evolução para a sociedade e para o povo. Nós estamos aqui para tentar estar com a maioria. E a maioria das pessoas precisa de estar num caminho seguro.
Então é por isso que não teríamos um benefício com o dracma.
Amanpour: OK.
Tsipras: É claro para nós, nós faremos tudo o que pudermos nesse sentido, para manter a Grécia dentro da zona euro e da Europa.
Mas como eu disse antes, estamos a observar essa situação numa visão global da Europa e da zona euro. Você pode entender o que vai acontecer se a zona euro for dividida e estiver neste grande perigo.
Amanpour: Mas você disse que vai fazer tudo o que pode. Diga-me apenas, o que vai fazer?
Tsipras: Em primeiro lugar, vamos cancelar todas as medidas do memorando de austeridade para a Grécia. Conhece o memorando?
Amanpour: Sim.
Tsipras: Vamos cancelar o memorando. E então iremos renegociar, a nível europeu, um caminho comum para sair desta crise.
E nós sabemos que esta crise não é uma crise grega, mas uma crise europeia. E vamos tentar encontrar uma solução comum. E eu disse-lhe antes, qual a nossa opinião sobre as soluções, sobre o papel do BCE, sobre os Eurobonds, sobre a negociação da dívida a nível europeu, da dívida pública de todos os países europeus.
Esta é a nossa opinião. Esta é a nossa posição. E eu acho que é uma posição clara.
Amanpour: E você acha que vai ter parceiros para a negociação?
Tsipras: Sim, nós pensamos que vamos encontrar parceiros. Em primeiro lugar, nos países do sul, eu acho que vamos ter o mesmo problema com a Itália, com a Espanha, com Portugal e também com a Irlanda. E eu acho que vamos encontrar parceiros, e também na Europa Central.
Estou a encarar como muito positiva a mudança na França, com a vitória do Sr. Hollande nas eleições. Vamos tentar encontrar parceiros. Mas eu acho que a situação política na Europa vai mudar nos próximos dias, especialmente após a grande mudança na Grécia. As pessoas têm presentemente a ideia de que nós não queremos mais medidas estatais. Nós não podemos continuar com estas medidas de austeridade, porque tudo foi destruído na Grécia.
Se o povo grego aderir a esta opinião, acho que tudo vai mudar na Europa.

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